terça-feira, 18 de maio de 2010

Loiça de Sacavém - Nostalgia XI



Todos nós, temos ou tivemos, uma avó ou uma tia, que ainda usa no seu dia-a-dia pratos da fábrica de loiça de Sacavém. Outros têm ou conhecem alguém que tem os ditos pratos pendurados na sua sala de jantar. A loiça de Sacavém, agora são peças de colecção, mas fizeram parte do dia-a-dia dos portugueses.

A fábrica situava-se na Quinta do Aranha em Sacavém, junto da da actual linha de caminho-de-ferro da Azambuja. Tendo sido instituída em 1850 ( como indica o painel de azulejos colocados à entrada da fábrica, e que foi visível até meados da década de 1990), por Manuel Joaquim Afonso; contudo esta data não se apresenta como consensual, pois a fabrica apenas começou a laborar em 1856.

Nos anos em que esteve à frente da fábrica, Manuel Joaquim Afonso teve que fazer face a diversos problemas financeiros, pelo que entre 1861 e 1863 a fábrica acabou por ser vendida a um inglês, John Stott Howorth, que introduziu novas técnicas de produção oriundas do Reino Unido. Em poucos anos, a Fábrica da Loiça tornava-se numa das mais importantes em Portugal no ramo da produção cerâmica.

A Fábrica de Loiça tornou-se numa das principais unidades fabris da cintura industrial da zona oriental de Lisboa (compreendida entre o Beato e Vila Franca de Xira), e o seu sucesso foi tal que conduziu ao aumento vertiginoso da população de Sacavém.

A Fábrica de Loiça de Sacavém foi pioneira em certas medidas que denotam a existência de preocupações sociais da parte do patronato: a criação de uma escola dentro da fábrica, a existência de um caixa de socorros mútuos para os seus trabalhadores, o direito a férias remuneradas, e a instituição de campos de férias para os filhos dos trabalhadores da fábrica.

Nas primeiras décadas do século XX, o pintor Jorge Colaço executou na fábrica os azulejos para diversas das suas mais significativas obras: a Estação de São Bento, no Porto (1903), o Palace-Hotel do Buçaco, no Luso (1907), o Pavilhão dos Desportos, em Lisboa (1922), ou a Casa do Alentejo, também na capital.

Em 1921, com a morte de James Gilman, sucede-lhe à frente da fábrica o seu filho Raul Gilman, tendo como sócio um outro inglês, Herbert Gilbert.

Os anos passaram e em 1962 ascendia à administração o filho de Herbert Gilbert, Leland Gilbert, e em 1970, entrava-se na última fase de vida da fábrica, com o derradeiro dono, Clive Gilbert.

Após o 25 de Abril de 1974, a Fábrica de Loiça entra num conturbado período, tanto a nível laboral, como financeiro, acabando a fábrica por encerrar em 1983.

Tendo sido declarada a sua falência a 23 de Março de 1994, pelo Tribunal Cível da Comarca de Lisboa, fechando definitivamente as portas a 7 de Abril. A isto seguiu-se a venda dos seus bens em hasta pública.

No local onde antes se erguera a Fábrica, nasceu uma nova urbanização (o Real Forte), tendo no entanto um pequeno espaço, situado em torno do forno n.º 18, sido destinado à preservação do espólio remanescente da antiga fábrica. Aí se instituiu o Museu de Cerâmica de Sacavém.


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5 comentários:

Zé Manuel disse...

Sempre que ia a casa da minha mãe, comiamos nestes pratos. Tinham um cavalo montado por um cavaleiro.

Teófilo Silva disse...

É pena ver estas indústrias a fecharem. Mas com estas Demo+Cracias
Made in Portugal, não há hipótese de subreviverem.

Olímpia Rodrigues disse...

Não conhecia este blog. É bastante interessante a sua temática.

Conheci a Fabrica de sacavém de perto o meu pai e o meu irmão, trabalharam lá anos. Ainda hoje tenho algumas louças lá produzidas.

Custódia C.C. disse...

Ainda tenho 3 peças que uso regularmente na minha cozinha :)

arte por um canudo 2 disse...

Quem não se lembra!..Ainda tenho alguns guardados. Fica o registo da história da fábrica e também o registo de Jorge Colação, um pintor com afinidades a Parada de Gonta.Abraço